Comunhão cristã na igreja local

 

 

Uma das figuras da igreja, na Palavra de Deus, é a de corpo. A igreja é o corpo de Cristo, formado por todas as pessoas que aceitam a Sua salvação e seguem os Seus ensinos. Embora seja-nos corriqueiro pensar a igreja como um prédio ou ainda como uma organização. Na Bíblia, por outro lado, a “igreja” nunca se refere a um edifício. E mesmo quando existe a presença da palavra edifício[1] em uma passagem do novo testamento para referir-se à igreja, a palavra sempre é usada para fazer menção das pessoas que ali se reuniam, não do próprio edifício onde se encontravam.

 

Ainda na figura de um corpo, encontramos uma das maiores realidades que lhe é inerente. A realidade da comunhão. Você já percebeu que no corpo humano, todos os membros, embora sendo muitos/diversos, estão sempre unidos e trabalhando de forma cooperativa? E quando a cooperação e unidade não acontece entre os órgãos do corpo humano, já percebeu que algo de errado acontece? Da mesma forma a igreja como corpo de Cristo deve ser também um lugar de comunhão entre as pessoas que a compõe, como fruto da comunhão que desfrutam com o cabeça do corpo – Jesus Cristo.

 

A palavra comunhão – Koinonia, é do idioma grego, o clássico. Esta palavra é um substantivo que procede do adjetivo koinon. A concordância exaustiva de Strong define Koinon/Koinos como companheiro, participante e parceiro. Nas cidades-estados da Grécia antiga – a Pólis, os “Koinos” eram aqueles cidadãos que possuíam entre si o sentimento e o propósito de lutar pelos interesses da comunidade. Por esse motivo dizia-se que esses indivíduos eram companheiros, participantes e parceiros.

 

O termo comunhão não ficou apenas nos escritos gregos, foi importado pelo cristianismo e chegou nas penas dos autores bíblicos. E estes, nos legaram, movidos pelo Espírito de Deus, a maravilhosa doutrina bíblica da comunhão. Ensinar em nossas igrejas esta divina doutrina é necessário e vital, pois os desafios que o mundo contemporâneo tem apresentado para a Eclésia tem sido prejudicial à saúde espiritual do corpo de Cristo. Por vezes, nossas igrejas sofrem consequências do individualismo exacerbado de um membro, sofrem pelo egocentrismo de um outro irmão, do não congregar de alguns outros e mais ainda com o movimento dos desigrejados, aqueles que decidem viver fora da comunhão dos santos. Tudo isso acontece, em grande parte, por uma falta de compreensão ou vivência da doutrina da comunhão. Todavia, como obreiros do Senhor, devemos urgir em nossos sermões e ensinos a voz salvadora da Palavra de Deus no que toca o assunto da comunhão, um meio de graça público. Devemos perfilar para nossas igrejas a virtude e o princípio da comunhão, como característica distintiva do cristão verdadeiro.

 

Como líderes chamados por Deus para liderar o rebanho do Supremo Pastor, devemos entender a necessidade da comunhão entre os membros da igreja como prática vivencial. Há uma frase comum: “ninguém vence sozinho”. Comunhão é isso. É a união de forças e pensamentos em torno de algo. Comunhão é a participação de todos; é quando pessoas se unem para buscar objetivos verdadeiros que lhes interessam. A comunhão começa com as pessoas da trindade e depois é compartilhada com a igreja (Jo 17.10-11, 21, 24-26). A nossa comunhão é com Deus (1 Jo 1.3), mas também é com os irmãos em Cristo (Gl 2.9). O Pai Celeste é base da comunhão (Mt 18.20). Ela é recomenda pelo apóstolo Paulo (Ef 4.1-3). A igreja primitiva foi um exemplo de comunhão (At 2.42). Jesus convida a Igreja a ser um corpo unido, jamais separado. Ser cristão é não apenas viver em comunhão com Jesus, mais também com os demais membros da igreja (1 Coríntios 12.12-13).

 

Em sua obra “A Igreja Amada – se Cristo amou a igreja assim, nós também devemos amá-la”, Earl Blackburn diz: “Comunhão não significa reunir-se com outros crentes para falar sobre esportes, diversões, clima, economia ou política, [……..]. Pelo contrário, comunhão é compartilhar, de coração, uns com os outros, as coisas do Senhor Jesus e de sua Palavra. A singularidade da comunhão cristã se encontra em sermos capazes de conversar e compartilhar, juntos, as alegrias, a felicidade, as vitórias, os problemas, as tentações, as tristezas e as bênçãos de nosso andar com Deus. Provérbios 27.17 afirma: ‘Como o ferro com o ferro se afia, assim, o homem, ao seu amigo’. Desfrutar comunhão com irmãos e irmãs em Cristo, em uma igreja local, é semelhante ao ‘ferro’ afiando o ‘ferro’; é o meio da graça que nos mantém espiritualmente saudáveis e vigorosos.”

 

Pastores e ministros do evangelho, somos chamados por Deus a levarmos uma diversidade de pessoas que compõe o corpo de Cristo a serem “Koinos”, companheiros, participantes e parceiros, para o avanço do Reino de Deus nesta terra. Paulo exortou duas irmãs da igreja em Filipos a pensarem o mesmo, a serem participantes, companheiras e parceiras de um mesmo propósito (Fp 4.1). O apóstolo dos gentios, embora preso, soube dos sérios riscos que corria a unidade e comunhão dos filipenses no exemplo de vida de duas mulheres membras daquela igreja local. E diante disso, ainda que por carta, o apóstolo das prisões não deixou de rogar que Evódia e Sintique pensassem o mesmo no Senhor.

 

Jesus viveu a comunhão como virtude vivencial. A comunhão era um assunto caríssimo para a cosmovisão de mundo de Jesus, que se tornou também assunto de suas orações. O mestre orou pela comunhão e unidade dos seus discípulos. Em João 17.20-21, disse Jesus: “²⁰ Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; ²¹ a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.”. Jesus pedia ao pai que seus discípulos fossem conhecidos por caminharem em comunhão entre si. Esta ainda é uma necessidade nos dias de hoje. E como Jesus, devemos orar pela comunhão entre os membros das igrejas que pastoreamos. Além de orar, utilizar todas as ferramentas disponíveis para que todos os crentes nascidos de novo, sejam conhecidos pela sua comunhão com o outro.  Apesar de ser um grande desafio para as igrejas caminharem em comunhão, ainda é a vontade do Senhor para a sua igreja.

 

Mais não se preocupe querido pastor, a Bíblia ensina como praticar a comunhão cristã. Essa prática se dá através dos mandamentos de mutualidade, caracterizados pela expressão “uns aos outros”, isto é, você é bom para seu irmão e seu irmão é bom para você. São mandamentos recíprocos de amor, ajuda e edificação.

 

A frase “um ao outro” é derivada da palavra grega “allelon”, que significa “um ao outro, um ao outro; mutuamente, reciprocamente.” Ocorre 100 vezes no Novo Testamento. Aproximadamente 59 dessas ocorrências são comandos específicos que nos ensinam como (e como não) nos relacionarmos. A obediência a esses comandos é imperativo. Constitui a base de toda a verdadeira comunidade cristã e tem um impacto direto no nosso testemunho no mundo (João 13.35). Além de allelon, a Bíblia usa outras palavras e frases para nos instruir como nos relacionarmos com outros. Com isso em mente, listamos aqui alguns imperativos para a prática da comunhão. Outros imperativos estão listados em nota de rodapé[2]. Ainda outros imperativos de comandos negativos (como não tratar um ao outro) estão listados nesta nota de rodapé.[3]

1) Amemo-nos uns aos outros (1 Jo 4.7)

João explica como o amor verdadeiro e piedoso na vida de uma pessoa é um sinal de nascer de novo. Aqueles que realmente amam a Deus agirão de acordo com esse amor, para com outras pessoas. Quem não demonstra amor não tem comunhão com Deus, no mínimo. O amor é algo que Deus nos mostrou primeiro, ao enviar Cristo. Somos novamente lembrados de que o amor verdadeiro envolve agir pelo outro, não apenas sentir pelo outro. Talvez se cumpríssemos o mandamento do amor, nenhum outro mandamento de mutualidade seria necessário. Paulo nos escreveu, que das virtudes, o amor é a maior. “Agorapoispermanecem a fé, a esperança e o amorestes trêsmas o maior destes é o amor.” (1 Co 13.13).

 

2) Sejam pacientes uns com os outros (Efésios 4.2)

Longanimidade significa “ser longânimo”, o que significa que sua mente pode suportar seu irmão ou irmã por muito tempo. Outra palavra para isso é “paciência”. Portanto, trata-se de ser paciente, humilde e gentil com seus irmãos e irmãs. O perigo é você adotar essa atitude, mas depois pensar que é melhor que a outra pessoa. Você pode dar a impressão de que alcançou um status exaltado, do qual despreza com um pouco de pena os outros que ainda não chegaram lá. Paciência é perseverança mesmo sob aflição. Quando injustiçado, seja verbalmente ou fisicamente, o paciente não retalia (cf. Gálatas 5.22; Colossenses 1.11; 3.12; 2 Timóteo 4.2). A palavra usada por Paulo é Makrothumia, paciência, longanimidade, e comunica um espírito que suporta insultos e injúrias sem amargura e sem reclamação.

3) Perdoai uns aos outros (Ef 4.32)

Efésios 4.17–32 é uma explicação valiosa e altamente prática de como viver uma vida cristã. Paulo observa a diferença entre uma vida sob o poder do pecado, em oposição a uma vida no poder de Cristo. Os cristãos são chamados a “deixar de lado” as coisas que enredam os incrédulos. Isso inclui pecados como malícia, calúnia e amargura. Em vez disso, deveríamos demonstrar uma atitude de amor e perdão semelhante à de Cristo.

O versículo 32 desta seção de Paulo oferece três breves comandos. Primeiro, ele diz explicitamente a seus leitores para serem gentis. O foco não está apenas na utilidade genérica. Paulo está pensando especificamente na compaixão por outros crentes na congregação. Segundo, Paulo usa a palavra grega eusplanchnoi , que significa ser “compassivo” ou “compassivo”. Às vezes também significa “coração forte”. O uso que Paulo faz dela aqui concentra-se na ideia de mostrar simpatia. Os crentes não devem ser conhecidos por uma atitude dura, mas sim pela compaixão. O relato do Bom Samaritano oferece a imagem de Cristo de viver com compaixão pelos outros (Lucas 10:25–37). Terceiro, Paulo ordena aos leitores que perdoem uns aos outros. Esta instrução vem acompanhada de uma explicação, referindo-se ao perdão que os crentes receberam de Cristo (Mateus 18:21–35). O perdão é uma característica única da fé cristã. As Escrituras muitas vezes incluem lembretes do perdão de Deus para conosco. Por exemplo, Mateus 6:12, parte da “Oração do Pai Nosso”, pede a Deus que “nos perdoe as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. Mateus 26:28 nos lembra que o sangue de Jesus foi especificamente “derramado por muitos, para perdão dos pecados”. Na igreja o perdão deve ser recíproco e não tem limites.

4) Levai as cargas uns dos outros (Gl 6.2)

Ajude seu irmão a levar as cargas. O termo usado aqui por Paulo é instrutivo. Ele descreve esses pesos usando o termo grego barē, que no Novo Testamento se aplica a algo excessivo ou extremo em seu peso. Paulo está dando instruções aos cristãos da Galácia sobre como viver uns com os outros como pessoas movidas pelo Espírito em Cristo. No versículo anterior, ele lhes disse que quando alguém é pego pelo pecado, outros deveriam intervir para ajudar a restaurar essa pessoa a andar novamente pelo Espírito. Agora ele diz a eles, e por extensão a todos os cristãos, para ajudarem a carregar os fardos uns dos outros. Observe o que isto significa: Estar em Cristo não significa que não teremos fardos para carregar nesta vida terrena. Paulo queria que compartilhássemos esse fardo e não lutássemos sozinhos contra o pecado e a tentação. Como ajudar a carregar as cargas uns dos outros cumpre a lei de Cristo? Paulo citou Jesus anteriormente ao dizer que toda a lei se cumpre em uma palavra: amor (Gálatas 5.14). O amor é a lei de Cristo.

Diante desses fatos, qual é o papel da liderança pastoral? A liderança da Igreja através da pessoa do pastor deve promover a Comunhão da Igreja. Um dos papeis do líder é ser “servo-facilitador” da busca das virtudes bíblicas por parte da igreja. Portanto, o pastor deve dar sua vida pela santificação da Igreja que dirige ao modelo de Cristo. Em 2 Co.11.2, Paulo diz: “Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo”.

 

 

[1] (Confira o significado da palavra “casa” em Romanos 16.51 Coríntios 16.19Colossenses 4.15Filemom 1.2 e veja o uso (locativo) que Paulo faz desta.)

[2] Comandos positivos (como tratar um ao outro): Amem uns aos outros (Jo 13.34); Sejam dedicados uns aos outros (Rm12.10); Honrem uns aos outros acima de si mesmos (Rm 12.10); Vivam em harmonia uns com os outros (Rm 12.16); Edifiquem-se uns aos outros (Rm 14.19; 1 Ts 5.11); Tenham a mesma mentalidade uns para com os outros (Rm 15.5); Aceitem uns aos outros (Rm 1.7); Advertam uns aos outros (Rm 15:14; Cl 3.16) Cumprimentem uns aos outros (Rm 1.16); Cuidem uns dos outros (1 Co 12:25); Servir uns aos outros (Gl 5.13); Levem os fardos uns dos outros (Gl 6.2); Perdoem uns aos outros (Ef 4:2, 32; Cl 3.13); Sejam pacientes uns com os outros (Ef 4:2; Cl 3:13); Falem a verdade com amor (Ef 4.15, 25); Sejam gentis e compassivos uns com os outros (Ef 4:32); Falem uns com os outros com salmos, hinos e cânticos espirituais (Ef 5.19); Submetam-se uns aos outros (Ef 5.21, 1 Pd 5.5); Considerem os outros melhores do que você mesmo (Fp 2.3); Cuidem dos interesses uns dos outros (Fp 2.4); Tenham paciência uns com os outros (Cl 3.13); Ensinem uns aos outros (Cl 3.16) Confortem uns aos outros (1 Ts 4.18); Encorajem uns aos outros (1 Ts 5.11); Exortem uns aos outros (Hb 3.13); Estimulem uns aos outros ao amor e às boas obras (Hb 10.24); Mostrem hospitalidade uns aos outros (1 Pd 4.9); Empreguem os dons que Deus nos deu para o benefício uns dos outros (1 Pd 4.10); Revesti-vos de humildade uns para com os outros (1 Pd 5.5); Orem uns pelos outros (Tg 5.16); Confessem suas falhas uns aos outros (Tg 5.16).

 

[3] Comandos negativos (como não tratar um ao outro): Não mintam uns aos outros (Cl 3:9); Parem de julgar uns aos outros (Rm 14:13); Se vocês continuam mordendo e devorando uns aos outros… vocês serão destruídos uns pelos outros (Gl 5:15); Não nos tornemos vaidosos, provocando e invejando uns aos outros (Gl 5:26); Não calunie ninguém outro (Tg 4:11); Não resmunguem uns contra os outros (Tg 5:9)